Protagonista, herói e personagem principal

Um post do blog do roteirista John August me chamou a atenção hoje. Como sempre, com sua linguagem simples e direta, ele esclareceu a distinção entre esses personagens tão importantes: protagonista, herói e personagem principal. Sou fã do John. Esse post me ajudou a entender melhor a construção de personagem de um roteiro que estou escrevendo neste momento.

Já falei um pouco sobre isso aqui no meu blog. Os posts mais acessados aqui são os que se referem a personagens, especialmente sobre protagonista. Abordei mais a construção deste personagem em roteiros do que em romances, pois as demandas são diferentes. Nos roteiros, a estrutura dramática requer certas atribuições que a literatura não exige. Mas isso é papo para outro post…

 John August explicou essa distinção de forma simples e eficiente, muito melhor do que eu faria.

Um leitor dele questionou como o roteiro de Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off ) pode ser considerado um ‘clássico’ e funcionar tão bem quando a ‘regra’ do protagonista não se aplica ao caso dele. Afinal, Ferris não muda durante o filme, ou seja, o ‘arco’ de sua trajetória se mantém horizontal. Isto é, Ferris termina o filme exatamente como é no início do filme.

John esclarece uma coisa importante: nem sempre o personagem principal é quem ‘protagoniza’ o filme. Além disso, nem sempre um filme funciona porque seguiu ‘regras’.

Pode parecer estranho, mas é verdade se levarmos em conta a distinção que ele fez em outro post (leia, em inglês, “What’s the difference between hero, main-character and protagonist”) sobre as variações desses três personagens. Vou traduzir esse trecho do post:

“Herói
Minha definição super-simplificada: este é o personagem que você espera que vá ‘ganhar.’ Embora não tenha problema pensar no Super Homem ou no Aladin, o herói não tem que ser nobre, corajoso ou especialmente talentoso. Contanto que você esteja torcendo por ele, é só o que importa.

Personagem principal
É exatamente como parece: a estória é principalmente sobre esse personagem. Confuso? Em geral, o nome dele aparece no título: Shrek, Rei Arthur, Tootsie, Cidadão Kane.

Protagonista
É o personagem que muda durante o curso da estória, viajando do Ponto A ao Ponto B, literal ou figurativamente. Ele aprende e cresce conforme a estória progride. Em geral, protagonistas querem algo no início da narrativa e, no final, descobrem que precisam de algo diferente.

Em resposta ao seu leitor, John explica que, no caso de Ferris Bueller, não é ele quem muda pois o ‘protagonista’ é o Cameron – embora seja um protagonista relutante, que é arrastado por Ferris, o personagem principal. A mudança é pequena, mas no final Cameron confronta o pai. Como diz John no post, o ‘arco’ não precisa ser épico.

Na maior parte dos filmes, o protagonista engloba esses três personagens e é simultaneamente personagem principal, protagonista e herói. A Ripley de Alien é um exemplo disso. Como protagonista, ela começa o filme relutante e, no final, se engaja ferozmente na luta. A mudança da protagonista não tem que ser, necessariamente, para ‘melhor’ ou ‘pior’, basta que haja uma mudança – de A para B.

John propõe que se brinque de ‘encontrar o protagonista’ como um exercício intelectual. É fácil no caso de Curtindo a Vida Adoidado ou de Charlie e a Fábrica de Chocolate (onde Charlie é o personagem principal, mas Willy Wonka é o protagonista, pois é ele quem muda, enquanto Charlie começa e termina o filme como um garotinho legal), mas no caso de Piratas do Caribe, não é tão simples.

Foi o que aconteceu no caso do meu roteiro. Tenho dois personagens principais, mas depois me dei conta de que o protagonista não era quem eu pensava. O primeiro (personagem principal), embora sofra muito, seu sofrimento não se traduz em mudança. O segundo (protagonista) sofre tanto quanto ele, mas muda efetivamente.

O caso de Billy Elliot é diferente, já que Billy é o protagonista, mas ele não muda durante o filme – quem muda é seu pai, o que permite que o talento, o amor e a persistência de Billy não sejam desperdiçados e ele tenha sucesso,  sem que isso signifique que o pai possa ser chamado propriamente de protagonista…

Para John, no entanto, se a estória funciona, isso é o que importa, independente de os personagens estarem ou não cumprindo suas funções arquetípicas. Portanto, não os ‘force’ a entrar em moldes.

Eis os links para os posts de John (em inglês) sobre essa questão:

. If we played by the rules right now we’d be in gym (sobre Curtindo a Vida Adoidado)

. What’s the difference between hero, main-character and protagonist

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