Escrever é trabalho

Algumas coisas nessa vida surpreendem mais do que outras. Tenho sido surpreendida com regularidade ultimamente e vocês vão entender porquê ao longo dos posts. Uma delas foi descobrir que a grande maioria dos escritores sofrem ou sofreram do mesmo estigma: a sensação de que escrever não é uma coisa lá muito séria, é um hobby, algo pra se fazer quando não se tem nada melhor para fazer, ou algo que a gente insiste em continuar fazendo quando deveria estar fazendo outra coisa que dê dinheiro (ou mais dinheiro), ou a despeito de estar fazendo outra coisa que paga suas contas…

Escrever é trabalho. Sério. O fato de não ser publicado nos coloca nesse lugar meio indefinido, desconfortável às vezes, de “aspirante a escritor” mesmo que a gente tenha passado grande parte da vida (adulta ou infantil) escrevendo. Qualidade não vem ao caso. Se o que está sendo escrito é bom ou não é algo difícil de definir: o que é bom pra mim pode ser razoável pra você, fantástico pro mercado e lixo pros críticos. Vai saber! Mas o “aspirante a escritor” é, em geral, percebido como um ser meio fora da realidade, um sonhador (ou delirante), alguém cujos originais estão juntando poeira em alguma ‘pilha dos desiludidos’ das editoras, na gaveta do escritório ou na casa de alguma amigo a quem você pediu uma opinião.

É um clichê, mas é bom lembrar que todos os escritores publicados já foram “aspirantes” um dia. E não teriam sido publicados se não fosse por uma resiliência, uma força de vontade, uma persistência e uma teimosia que beiram a insanidade. E, embora a maior parte deles tenha outros empregos além de escrever, estou certa de que encaram a empreitada de produzir um livro, criar uma estória, desenvolver personagens como trabalho. E trabalho árduo. E solitário.

Mas é dificil resistir aos apelos do mundo, sobretudo porque a gente se sente culpadíssima por estar devotando tanto tempo a algo que, aparentemente, só nos torna antisociais. E egoísta por estar se negando a atender às solicitações daqueles que amamos e que nos amam… Difícil mesmo. Mas além das pessoas concretas que solicitam atenção enquanto você tenta escrever, existem as criaturas ainda mais insistentes dentro da nossa cabeça que, às vezes, nos impedem de escrever.

Anne Lamott, no livro “Bird by bird, Some Instructions on Writing and Life“, ou “Um Pássaro de Cada Vez, Algumas Instruções Sobre Escrever e Vida”, diz o seguinte​​ quando você tenta começar a trabalhar:

“Então a sua doença mental se aproxima da mesa como se fossem seus parentes mais insidiosos e furtivos. Eles puxam as cadeiras e sentam em semicírculo em volta do computador, tentando ficar quietos, mas você sabe que eles estão ali, exalando um bafo acre, espiando por trás das suas costas.

O que eu faço nesse momento, enquanto o pânico aumenta e os tambores da floresta começam a ressoar e percebo que a fonte secou e que o meu futuro ficou pra trás e que vou ter que arranjar um emprego, só que eu não tenho qualquer grau de empregabilidade, é parar. Primeiro, tento respirar pois estou ou sentada arfando como um cachorro ou respirando lentamente, silvando como um asmático à beira da morte. Então eu fico sentada por um minuto, respirando devagar, em silêncio. E deixo minha mente divagar. Depois de um tempo, tento decidir se preciso ou não de aparelho nos dentes e se agora seria um bom momento para começar a dar alguns telefonemas, aí começo a pensar em aprender a usar maquiagem e que agora talvez eu possa conseguir um namorado que não precise ser completamente reformatado e a minha vida seria o máximo e eu seria feliz o tempo todo, e depois penso em todas as pessoas para quem eu deveria ter ligado antes de sentar para trabalhar e que eu talvez devesse pelo menos marcar um encontro com o meu agente e contar pra ele essa grande idéia que eu tive e ver se ele acha que é uma boa idéia e se ele acha que eu preciso colocar aparelho nos dentes – se é que isso é o que ele realmente pensa quando a gente almoça junto. Então eu penso em alguém que me deixou realmente chateada e em algum problema financeiro enlouquecedor e decido resolver isso antes de começar a trabalhar. Depois eu me transformo num cachorro mastigando um brinquedo, sacudindo ele pros lados, brincando de lutar, jogando ele pra trás das costas, caçando e jogando ele por sobre o ombro de novo. E paro um pouco antes de começar a latir de verdade.”

(“Then your mental illness arrive at the desk like your sickest, most secretive relatives. And they pull up chairs in a semicircle around the computer, and they try to be quiet but you know they are there with their weird coppery breath, leering at you behind your back.

What I do at this point, as the panic mounts and the jungle drums begin beating and I realise that the well has run dry and that my future is behind me and I’m going to have to get a job only I’m completely unemployable, is to stop. First I try to breathe, because I’m either sitting there panting like a lapdog or I’m completely making slow asthmatic death rattles. So I just sit there for a minute, breathing slowly, quietly. I let my mind wander. After a moment I may notice that I’m trying to decide whether or not I am too old for orthodontia and whether right now would be a good time to make a few calls, and then I start to think about learning to use makeup and now maybe I could find some boyfriend who is not a total and complete fixer-upper and then my life would be totally great and I’d be happy all the time, and then I think about all the people I should have called back before I sat down to work, and how I should probably at least check in with my agent and tell him this great idea I have and see if he thinks it’s a good idea, and see if he thinks I need orthodontia – if that is what he is actually thinking whenever we have lunch together. Then I think about someone I’m really annoyed with, and some financial problem that is driving me crazy, and decide that I must resolve this before I get down to today’s work. So I become a dog with a chew toy, worrying it for a while, wrestling it to the ground, flinging it over my shoulder, chasing it, licking it, flinging it back over my shoulder. I stop just short of actually barking.”)

Mas você resiste e senta pra trabalhar. O que acontece? Lamott continua:

“Você tenta sentar todos os dias aproximadamente à mesma hora. Isso treina seu inconsciente a despertar o processo criativo. Você senta, digamos, às nove todas as manhãs, ou às dez todas as noites. Coloca uma folha na máquina de escrever ou liga o computador e acessa o arquivo certo e depois fica olhando pro papel por uma hora mais ou menos. Você começa a se balançar, só um pouco no início, e depois como uma enorme criança autista. Olha pro teto, depois pro relógio, boceja, e olha pro papel de novo. Depois, com os dedos posicionados sobre o teclado, você olha de soslaio para uma imagem se formando em sua mente – uma cena, um localidade, um personagem, o que quer que seja – e tenta silenciar a mente, tentando ouvir, por cima das outras vozes, o que aquela paisagem ou personagem têm a dizer. As vozes são fantasmas barulhentos e macacos bêbados. São as vozes da ansiedade, do julgamento, da maldição, da culpa. Também, da hipocondria extrema. Pode ser que haja uma espécie de Enfermeira Ratched (alguém muito severo) listando as coisas que precisam ser feitas neste exato momento: comida que precisa ser retirada do freezer, compromissos que precisam ser cancelados ou estabelecidos, cabelos que precisam ser aparados. Mas você aponta um revólver imaginário para a sua cabeça e se força a permanecer sentada na mesa. Tem uma dorzinha despontando no seu pescoço. Passa pela sua cabeça que talvez você esteja com meningite. Depois, o telefone toca e você olha pro teto enfurecida, reúne cada grama de educação, e atende com talvez um ligeiro toque de irritação. A pessoa do outro lado pergunta se você está trabalhando e você diz que está, porque você está.”

(“You try to sit down at approximately the same time every day. This is how you train your unconscious to kick in for you creatively. So you sit down at, say, nine every morning, or ten every night. You put a piece of paper in the typewriter, or you turn on your computer and bring up the right file, and then you stare at if for an hour or so. You begin rocking, just a little at first, and then like a huge autistic child. You look at the ceiling, and over at the clock, yawn, and stare at the paper again. Then, with your fingers poised on the keyboard, you squint at an image that is forming in your mind – a scene, a locale, a character, whatever – and you try to quiet your mind so you can hear what that landscape or character has to say above the other voices in your mind. The voices are banshees and drunken monkeys. They are the voices of anxiety, judgement, doom, guilt. Also, severe hypochondria. There may be a Nurse Ratched-like listing of things that must be done right this moment: foods that must come out of the freezer, appointments that must be canceled or made, hairs that must be tweezed. But you hold an imaginary gun to your head and make yourself stay at the desk. There is a vague pain at the base of your neck. It crosses your mind that you have meningitis. Then the phone rings and you look at the ceiling with fury, summon every ounce of noble oblige, and answer the call politely, with maybe just the merest hint of irritation. The caller asks if you are working, and you say yeah, because you are.“)

A menos que você esteja ganhando muito dinheiro com isso, o que é verdade apenas para 0,00001% dos escritores do mundo, as pessoas acham que escrever é passatempo. Como é difícil dizer “não” aos nossos próprios apelos e desculpas; aos chamados da família, dos filhos ou dos amigos; trancar a porta do quarto ou do escritório; colocar o telefone na secretária eletrônica. É difícil. Para todos os escritores. Eu, por exemplo, consegui estabelecer isso com a minha família e amigos, que são extremamente compreensivos. Eles sabem que, quando estou trabalhando, não abro porta nem atendo telefone. Mas o sentimento de estar se afastando do mundo permanece e, com ele, a culpa.

Escrever todos os dias, na minha opinião, é uma excelente dica, mas não é regra. O importante é estabelecer um tempo, qualquer tempo, o tempo possível e tentar respeitar esse tempo. Eu estabeleci, enquanto estava no Brasil, que as manhãs de sábado e domingo eram o tempo possível. Seguir isso me fez conseguir finalizar um livro em um ano (não se empolguem, finalizei no sentido de terminar o primeiro rascunho, mas já estou re-escrevendo!).

Importa sentar, balançar na cadeira que nem autista, bocejar, olhar para o teto, e começar a escrever. Qualquer coisa. Apenas escrever.

3 Responses to Escrever é trabalho

  1. flaiane says:

    Olá,

    Há possibilidade de encontrar este livro traduzido em português? e onde?

  2. patricia says:

    ADOREI LEGAL…FOI D++++….

  3. Neiva Meriele da Silva de Oliveira says:

    nossa, é exatamente assim que me sinto, escrever é minha vida e faz parte de mim, quando eu menos espero, no banho ou mesmo cozinhando páh….. aquela idéia me atinge e então começa uma história incrível que se transforma em um livro, livro esse que por falta de grana fica guardado em meu pen-drive mas pensa que isso me faz desistir? De jeito nenhum, já escrevi quatro livros, li, reli, dei boas gargalhadas e chorei com meus personagens. Algumas pessoas devem achar que eu não tenho nada melhor a fazer entretanto essa é minha paixão e algum dia vão ouvir muito o meu nome por ai…

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