Qual é a sua estória?

E começo com a seguinte pergunta: por que você está escrevendo esta estória? O que você quer dizer com ela? Começo com essas perguntas por que decidi transformar meu último romance (uma aventura de fantasia para jovens adultos) num roteiro de cinema. Pensei: moleza. Levei um tempão enorme pra finalizar essa estória, conheço ela de trás pra frente e salteado, tenho todos os personagens claríssimos e a ação está funcionando super bem. Eu tinha, afinal de contas, testado o livro com algumas pessoas, com resultados satisfatórios.

Porém…

Quando fui apresentar a minha proposta de roteiro, levei de cara essas duas perguntas pelas fuças. Como assim, pensei? É uma estória de fantasia, contemporânea, com personagens brasileiros, mitos brasileiros. É super legal.

Bom, o professor de roteiro já tinha me avisado que ele odiava (não se trata de não gostar, mas de detestar) o gênero Fantasia. Caraca, pensei. Sinistro. Mas ele não tinha que gostar ou deixar de gostar do gênero, ele tinha que me ajudar a construir um roteiro que funcionasse. Eu, do meu lado, tinha que apresentar uma boa estória, fantasia ou não fantasia.

Sem entrar no mérito das diferenças entre romance e roteiro (que são enormes), eu tinha que saber porque a minha estória era boa, porque ela funcionava ou não funcionava. Intimamente, eu acreditava que tinha algo com potencial nas mãos. Mas será que eu tinha realmente escrito uma boa estória? O que era uma boa estória?

Uma boa estória é aquela que as editoras procuram para publicar. Agora, se algum dia eu descobrir o que, de fato, é uma boa estória, conto pra vocês e a gente divide os lucros. Antes de poder dizer se ela era boa ou não eu precisava conseguir contar que estória era essa. Em poucas palavras. Só pra vocês entenderem melhor a situação:

Imagina que você vai a uma festa. Nada demais, apenas mais uma festa. Porém, eis que em determinado momento, um grupinho se forma e começa a conversar animadamente sobre livros e estórias e editoras e novos talentos. Um dos convidados diz que trabalha numa editora e que, por causa do sucesso do Harry Potter, eles estão lançando um selo para trabalhar livros de fantasia escritos por escritores nacionais. E estão atrás de uma boa estória.

Nessa hora seu estômago aperta, o coração dispara, a garganta seca. Eu tenho uma boa estória. Não, eu tenho uma estória sensacional. Eu tenho uma estória do cacete! Enquanto sua mão gela e você deixa o drink de lado, trêmula, a conversa continua. A sua cabeça fervilha, o cérebro esquenta por dentro. Se controla, você pensa. Engole em seco. Respira fundo. Se controla, pateta, e fala. A conversa continua. Fala, droga! Todo mundo ri porque a pessoa interessada na boa estória tem um senso de humor genial. Anda, fala! Vai perder essa chance?

Aí você interrompe a pessoa e diz que você tem uma boa estória. Porque você tem. A pessoa pára e te olha com interesse. Todo mundo silencia. Todo mundo te olha com interesse. E você começa: é o seguinte. A estória é sobre um cara que… bom, é uma estória de fantasia, que se passa agora, no mundo de hoje… você sabe, de aventura, com ação e tudo… Bom. Mas a estória começa quando o cara descobre que ele é a chave de um portal para uma outra dimensão. Mas ele primeiro não quer isso, ele não quer ser isso, ele é um cara normal, não quer se herói. Não, mas o que importa é que ele tem esse poder dentro dele. Ele pode abrir portais entre dimensões. Quer dizer, nem todas as dimensões, mas entre duas pelo menos. Só que ele, para abrir o portal ele precisa de uma chave, que tem que ser colocada no fundo de um lago. O lago das Amazonas. Saca? Na Amazônia? Mito das Amazonas? Bom. A chave é uma pedra, um muiraquitã. Aí ele começa a ser caçado pelos caras que roubaram a pedra. Eu falei que a pedra tinha sido roubada no começo da estória, não falei? Não? Okey. Então. A pedra foi roubada no início da estória…

De repente, o grupo se desfez e você nem notou. A galera foi saindo de fininho e a pessoa da editora está com um sorriso amarelo desenhado na cara, olhando discretamente pros lados enquanto balança a cabeça positivamente (mas sem encorajar) e só esperando você parar para respirar e pedir licença.

Você tem que ser capaz de entregar a sua estória e o potencial dela em menos de 25 palavras. Essa baboseira toda aí em cima (a minha estória) foi resumida na seguinte fraze: “um jovem é confrontado com o bem e o mal e escolhe nenhum dos dois.” Não conta a estória, mas desperta a curiosidade. Como assim? É possível não escolher entre o bem e o mal?

Se a pessoa ignorar sua “punch line”, volta pro papel e reescreve. Mas essa punch line, essa story line, é a essência da sua estória. Se a pessoa ficar interessada, você elabora, em três minutos. Quatro se a pessoa for paciente. Pra isso, você tem que saber exatamente que estória é essa, pra que público ela fala, qual é o seu diferencial.

Esse é um exercício muito útil. Mas do que isso, é um teste. Você pode nunca querer apresentar sua estória para um produtor ou editor. Mas quando você entende porque decidiu contar aquela estória, daquele jeito, com aquela ação, aqueles conflitos e aqueles personagens, fica muito mais fácil de entender se ela realmente funciona ou não.

Estou usando a minha própria estória para ilustrar esse exemplo porque eu penei pra entender porquê eu não ia abrir mão dela naquela aula. Eu podia ter apresentado outra estória para a aula de roteiro. Mas eu queria contar aquela. Perturbei gente de quatro continentes para me ajudar. Suei sangue na frente do computador e longe dele, pensando e repensando a estrutura. Simplesmente, quando eu pensava a estória na forma como ela estava, no final eu só conseguia pensar num grande “E daí?”

Bom, no final consegui encontrar a estória que eu realmente queria ter contado desde o início. Meu ‘pitch’ – esse processo aí em cima, resumido, ficou assim:

Um jovem descobre ser o protetor de um portal interdimensional. A chave deste portal foi roubada e ele é a única pessa capaz de encontrá-la e recuperá-la. Porém, para fazer isso, ele terá que dominar a força primitiva da Marca que faz dele o protetor do portal – uma energia gravada no seu corpo, herdada de antepassados, que pode dar a ele grande poder ou matá-lo.

Assustado e sob pressão, ele usa o poder da Marca para ser o herói que esperam que ele se torne. Porém, cada escolha sua revela o lado mais obscuro da sua natureza. E, sob a influência da Marca, ele liberta seus piores demônios, desviando da missão original e se tornando aquilo que ele mais detesta. Em busca de redenção, ele retorna à missão e recupera a pedra, mas é tarde demais. Não há perdão possível.

Então, ele destrói a chave do portal, rompendo o link entre as dimensões, mata seu herdeiro antes dele nascer, e se recusa ser um governante no inferno ou um deus entre os homens. Ele tenta destruir a Marca, mas até a morte lhe é negada. Resgatado por desconhecidos, ele abandona sua antiga identidade e some no mundo.

Não ficou perfeito, mas ficou aceitável e o professor gostou. Ele gostou, inclusive, do fato que a estória abre uma possibilidade de continuação. Lógico que eu quero escrever a continuação – meu personagem não vai ficar perdido no mundo por muito tempo. Mas, afinal, ele só tem 18 anos e vai acabar encontrando seu caminho, assim espero eu. E a Marca está lá, intacta. E não vai ficar quieta. Ele vai aprender a lidar com ela da forma mais difícil, com seus próprios erros e com as consequências dos seus atos, mas vai aprender, como todo mundo.

Mais importante, eu fiquei muito mais feliz por que encontrei a estória que eu queria contar. Agora estou trabalhando no roteiro com muito mais clareza, depois vou re-escrever o livro, que se chama “A Marca”. O mais curioso foi que, embora eu tenha modificado a estória original, em essência, ela continuou a mesma, inclusive os marcos principais da ação.

Mas quando a gente começa a escrever uma estória, não tem que saber tudo de antemão. Porém, saber onde você quer chegar, o que você quer dizer com ela ajuda muito.

Respondendo às minhas próprias perguntas:

Por que você está escrevendo essa estória? Porque eu queria um herói que recusasse esse papel, cujos ‘poderes’ revertessem contra ele, cujo processo de aprendizado fosse confrontar seu lado mais escuro, olhar seus demônios cara-a-cara. Eu queria falar de mitos brasileiros de uma forma diferente, com uma outra perspectiva. Eu queria questionar ‘bem x mal’ como se fossem absolutos e pensar como é difícil para uma pessoa normal lidar com uma situação extrema. Ao mesmo tempo, refletir sobre decisões que a gente pensa, num determinado momento, que são as melhores e, às vezes, são as piores. Mas o quanto a gente aprende nesse processo também.

O que eu quero dizer? Que se a gente passa pelo mundo batido, sem pensar no que faz, levado pelos instintos básicos, pelos impulsos, sem medir as consequências, o resultado pode ser doloroso. Mas a gente faz isso e isso é humano. Somos humanos, falíveis e estamos aprendendo. Simplesmente aprendendo, de forma mais ou menos dolorosa. A aquisição desse entendimento é lenta e gradual, faz parte da vida.

Enfim, sem querer dar lição de qualquer espécie, eu queria falar sobre essas pessoas confrontadas com responsabilidades gigantescas, assustadoras. Eu acredito que o meu personagem vá aprender a lidar com ela, afinal, ele não recebeu essa tarefa à toa. Mas isso é o que eu acredito. Por enquanto, ele ainda não tem condições de entender isso. E ainda vai sofrer um bocado até a ficha cair.

É uma boa estória? Também não sei. Mas, parafraseando JK Rowling, é o melhor que estou podendo fazer nesse momento com o talento que eu tenho. Bom ou ruim, é o que dá pra ser. E isso, pra mim, já é bom demais!

One Response to Qual é a sua estória?

  1. Bruna Aparecida Maestá says:

    adorei!

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