Personagem – uma introdução

Ontem, na aula de Writing Novels (veja um pouco mais sobre os módulos deste semestre no Illudere), a gente aprendeu um pouco mais sobre personagem. Falei no post anterior sobre protagonista, que é o personagem principal da estória, e, para mim, o que há de mais interessante num livro. Sou ligadíssima nos personagens porque são eles que movem a ação. Ainda que eu adore uma boa estória, sempre uma boa estória (para mim) é indissociável de bons personagens.

Para seguir o que aprendi ontem, mais do que falar sobre personagens em si, vou falar um pouco dos exercícios que fiz para trazer esses personagens à tona, para fazer eles se tornarem mais vívidos e únicos dentro do texto.

Um dos exercícios que achei mais interessante foi o seguinte: tentar lembrar qual foi o detalhe marcante, um gesto, um maneirismo, algum detalhe que fez a gente se apaixonar – ou detestar – uma determinada pessoa. Um trejeito, uma característica física, algo que a gente nunca esqueceu.

No livro “Essays in Love“, Alain de Botton fala sobre o que fez ele se apaixonar por uma mulher numa viagem de avião. E o detalhe mais marcante foi, para ele, os dentes da frente separados. Ele ficou encantado com os dentes separados e chega a desenhar os dentes da moça no livro. Para ele, mais importante do que a perfeição, era esse detalhe de imperfeição que conjugava uma outra dimensão de beleza.

Quando a gente pensa num personagem nosso e como descrevê-lo, não só fisicamente, mas também os maneirismos, o gestual, o sua composição psicológica, é interessante pensar nesses aspectos que os tornam únicos, assim como existem aspectos únicos nas pessoas à nossa volta – que são, para nós, encantadores ou irritantes mas inesquecíveis.

Nesse exercício, me lembrei da minha primeira paixão e o que me marcou foi a forma como ele inspirava, me olhava em silêncio, e me dizia alguma coisa sem palavras, como se no ar tivesse contida alguma mensagem, traduzida com os olhos. Ele não fazia isso de propósito, nem com intenção, era inconsciente. Dependendo da situação, eu ficava encantada, e captava aquele ‘gesto’ silencioso sem precisar responder, sem precisar de explicação. Outras horas, eu também captava o sentido e ficava louca de ódio, queria gritar contra aquela mudez, aquela ‘pretensa’ comunicabilidade.

Enfim, esses ‘gestos’ às vezes traduzem melhor o personagem do que uma descrição precisa de como aquele personagem é. Descrever, por exemplo, o quarto do personagem, ou o que a gente vê num álbum de fotografias, faz com que a gente adentre aquele ‘mundo’, o mundo onde aquela pessoa habita e transita. Olhar o mundo através dos olhos deles, fazer os personagens se descreverem entre si, entrevistá-los, conversar com eles, tudo isso ajuda a criar esse senso de ‘realidade ficcional’ que em eles estão inseridos.

Um outro exercício interessante que a gente fez foi lembrar e descrever alguma coisa marcante sobre alguém da nossa infância. Saca aquele tipo de pessoa que a gente nunca mais esquece? Alguém que fez algo imperdoável, ou por quem a gente se apaixonou, ou que era o ‘gato’ da escola, ou era a professora mais insuportável. Depois, fazer o mesmo exercício de descrição, vendo aquela pessoa como ela seria no futuro.

Tudo isso nos dá farto material de trabalho e torna os personagens mais multidimensionais e multifacetados. O exercício que vamos apresentar na semana que vem é uma autobiografia (escrita pelo personagem) de dois ou três personagens de algum romance ou estória nossa. Se não tiver, pode ser de alguma pessoa que a gente conheça, ou um personagem que a gente esteja pensando em criar no futuro. As perguntas a serem respondidas, embora o texto tenha que ser escrito em prosa (não em respostas), são as seguintes:

. Meu nome é…
. Nasci em…
. Meu pai…
. Minha mãe…
. O resto da minha família…
. Quando eu era criança…
. Minha aparência é…
. Eu vivo de….
. O lugar onde vivo…
. O mais importante pra mim na vida é…
. Eu desejo que… ou espero que…

Isso é apenas um início, mas dá pra conhecer bastante do personagem através dessas perguntas bem simples. Não que você, no seu texto, vá apresentar seu personagem listando essas coisas. No texto, é legal quando você vai descobrindo o personagem, quando ele vai se revelando aos poucos, crescendo, apresentando novas facetas, embora seja legal que o ‘básico’ seja apresentado no início, pra que quem lê tenha uma idéia de quem está ali no papel.

No texto “O que você sabe sobre seus personagens” (What do you know about your characters), do livro What If?, de Anne Benays and Pamela Painter, há duas citações de Hemingway sobre isso:

“Em Death in the Afternoon, Hemingway disse: ‘Pessoas em um romance, personagens não tão bem construídos, precisam ser projetados a partir da experiência assimilada pelo escritor, a partir do seu conhecimento, de sua cabeça, de seu coração e de tudo o que há dentro dele. Um bom escritor deve saber absolutamente quase tudo.'” (In Death in the Afternoon, Hemingway said, ‘People in a novel, not skillfully constructed characters, must be projected from the writer’s assimilated experience, from his knowledge, from his head, from his heart and from all there is of him… A good writer should know as near everything as possible.’)

E Hemingway continua:

“Se um escritor de prosa sabe o suficiente sobre o que está escrevendo pode omitir coisas e o leitor, se o escritor estiver escrevendo com verdade suficiente, vai ter uma intuição destas coisas com tanta força quanto como se o escritor as tivesse escrito. A dignidade do movimento de um iceberg se deve a apenas um oitavo dele estar na superfície. Um escritor que omite coisas porque as desconhece deixa apenas marcas superficiais nas suas páginas.” (If a writer of prose knows enough about what he is writing about he may omit things that he knows and the reader, if the writer is writing truly enough, will have a feeling of those things as strongly as though the writer had stated them. The dignity of the movement of an iceberg is due only to one-eighth of it being above water. A writer who omits things because he does not know them only makes hollow places in his writing.)

E o texto propõe a seguinte lista a se conhecer sobre o personagem:

. Nome
. Apelido
. Sexo
. Idade
. Aparência
. Educação
. Vocação – ocupação
. Status e situação financeira
. Estado civil
. Família, etnicidade
. Dicção, sotaques etc
. Relacionamentos
. Lugares (casa, trabalho, carro, etc)
. Posses
. Lazer, hobbies
. Obsessões
. Crenças
. Postura política
. História sexual
. Ambições
. Religião
. Superstições
. Medos
. Atitudes e posturas
. Defeitos de caráter
. Forças de caráter
. Animais de estimação
. Gosto literário, musical etc
. Trechos em diários
. Correspondências
. Preferências culinárias
. Caligrafia
. Signo astrológico
. Talentos
Etc

As autoras recomendam que se faça esse exercício depois de escrever sua estória, como uma forma de ‘reconceber’ o personagem, não como uma forma de criar um. É uma forma de descobrir coisas que você não sabia sobre o personagem. E elas também dizem que é possível escrever um personagem sem que se sabia todas essas coisas, porém, quanto mais se souber – mesmo que não se inclua no texto – melhor.

Porém, acho a lista útil mesmo quando a gente está pensando no personagem e nos traços que podemos apresentar para marcá-lo na memória do leitor enquanto ele lê o nosso romance. Os aspectos mais relevantes dele para a estória e, ocasionalmente, revelar outras características ao longo do texto.

Personagem é um assunto quase inesgotável e vou voltar a isso mais tarde, em outros posts. Por enquanto, deixa eu ir fazer o meu exercício, que tenho que apresentar na semana que vem!

One Response to Personagem – uma introdução

  1. Josielson says:

    Olá sempre fui um amante dos livros,principalmente dos romances; uma bela estória sempre me prendeu mais que qualquer coisa, mas nunca tive coragem de escrever a minha propria estória, até agora, essas dicas são ótimas para pessoas como eu, que estão se aventurando pela primeira vez nesse mundo de palavras, percebo que ainda tenho muito o que aprender, mais nunca é tarde para se lançar por inteiro nesse mundo da escrita.

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