Subvertendo o pré-concebido: vampiros, zumbis, dragões e etc.

Não sei se o título para este post é apropriado, mas a idéia é a seguinte: em algumas de nossas estórias existem figuras ou personagens que repetem um padrão que pode ser chamado ‘pré-concebido’.  São os clássicos vampiros, dragões, zumbis etc, que têm sempre atributos fortes que os definem como tal.

Durante meu mestrado, esse foi um tema de uma das aulas do módulo Ficção de Fantasia: pensar em como subverter ou modificar esses “padrões”. Por exemplo, que elementos novos ou diferentes poderíamos atribuir a um dragão? Em geral, o dragão é uma criatura temível que solta fogo pela boca (ou nariz) e que pode ser tanto um agente do bem quanto do mal. O exercício era justamente pensar em como trazer algum atributo novo ou diferente a esse padrão usual sem permitir que esses personagens perdessem a “essência” que os tornava reconhecíveis.

Utilizamos esses “padrões pré-concedibos” muitas vezes apenas “copiando e colando” o que constitui esse personagem ou figura sem pensar em modificá-lo ou acrescentar algo diferente.

Veja o exemplo do livro “Crepúsculo” (Twilight), tão badalado atualmente. Nele, a tradicional imagem do vampiro é ligeiramente alterada – alguns elementos dela, pelo menos. Os Cullen não se expõem ao sol porque seriam destruídos ou queimados, mas porque a pele deles brilha como diamante e isso, que os torna ainda mais belos (predadores usando a beleza como arma de caça), acaba por expô-los de forma indesejada. Eu nunca tinha visto a “subversão” deste atributo clássico em um vampiro. Já os vi ignorarem o sol ou serem destruídos por ele, mas nunca terem sua beleza intensificada pela luz do dia. Não sei se a autora introduziu essa modificação no “padrão pré-concebido” dos vampiros de forma consciente, mas foi interessante.

Para usar um exemplo de cinema me ocorre agora o “oráculo” de Matrix. Quem esperaria que uma dona de casa que assa cockies e fuma seja um oráculo? Quando me deparei com a personagem, logo um sorriso se estampou na minha cara. Eu estava esperando alguma coisa muito séria e austera e pensei: que máximo, me surpreendeu.

(Um parênteses – veja também o post sobre a questão dos estereótipos em heróis e vilões.)

Com certeza você já deve ter sido surpreendida por “subversões” similares. A sugestão é: quando pensar em introduzir personagens deste tipo – vampiros, unicórnios, dragões, oráculos, zumbis etc – pense em quais elementos podem ser subvertidos sem que eles percam as características que os tornam reconhecíveis. Ninguém tem dúvida de que os vampiros de “Crepúsculo” são vampiros mesmo, mas os toques que a autora deu os fizeram ligeiramente diferentes dos vampiros tradicionais.

Esse tipo de “subversão” se aplica muito a estórias de Fantasia, mas podemos pensar em como encontrar elementos inovadores em qualquer um dos gêneros literários. É ter consciência do processo de escrita e botar a criatividade para funcionar.

Outra questão importante em relação a isso é que, se esse detalhe não necessariamente torna qualquer estória de melhor ou pior qualidade, adiciona um elemento novo a padrão velho e pode torná-la mais atraente a editoras na tentativa de ser publicado. Editoras estão sempre procurando coisas novas, abordagens diferentes ao que já é de gosto popular. Esse elemento não vai garantir a publicação – isso depende de diversos fatores – mas pode chamar a atenção.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: