Escrevendo romances históricos: Ken Follett e Os Pilares da Terra

Ken Follett

Ken Follett

Na sexta-feira, 5 de março, participei de uma palestra no Museu Victoria & Albert, em Londres, com o escritor Ken Follett, autor de Os Pilares da Terra (The Pillars of the Earth) e sua continuação, Mundo Sem Fim (World Without End), dentre outros, como O Buraco da Agulha ( The Eye of the Needle), que virou filme. Follett é um cara simpático, com um sorriso muito branco e mais jovem do que eu imaginava. Ele falou, sem nenhum constrangimento, do quanto ele gosta de escrever para o grande público e fazer sucesso – muito sucesso. Em uma hora de palestra ele falou sobre o seu maior sucesso, o processo de escrita dos seus livros e também o processo de pesquisa necessário para a produção dos romances.

Os Pilares da Terra é, de longe, o maior sucesso de Follett mas ninguém na indústria queria que fosse escrito. Quando ele apresentou o projeto de escrever sobre a estória da construção de uma catedral no século XIII, com um padre como protagonista, todo mundo torceu o nariz – exceto por seus amigos escritores, que viam o potencial da estória. O agente sabia que seria difícil vender o livro para as editoras. Mas, afinal, ele já era um escritor bem sucedido e o livro saiu. O resultado inicial de vendas foi decepcionante, para a tristeza de Follet. Parecia que a indústria estava certa. Aos poucos, porém, as vendas começaram a aumentar, o interesse pelo livro em outros países também, e leitores começaram a mandar cartas. O sucesso de Os Pilares da Terra se deu mais por conta dos leitores recomendando a leitura uns aos outros do que pelo marketing propriamente dito. Isso acontece mais do que a gente imagina. Harry Potter e a Pedra Filosofal, de J. K. Rowling, por exemplo, ninguém queria publicar. A Bloomsbury arriscou. O livro levou um tempo para ganhar o público, depois virou um fenômeno.

Os Pilares da Terra

Os Pilares da Terra conta a estória de Philip, um padre galês determinado a construir uma catedral numa pequena cidade inglesa do século XIII. Todas as estórias e personagens giram em torno, a princípio, da igreja local e, depois, da construção da catedral. Claro que a estória em si é muito bem escrita, mas os detalhes sobre a época, pra quem gosta de romance histórico, são fascinantes. Segundo Follett, o que ele queria era explicar e entender como e por que as catedrais medievais eram construídas. Uma das catedrais favoritas dele, por exemplo, a de Salisbury, levou 30 anos para ser erguida e tem lindas janelas. Por que as catedrais têm uma determinada forma? Esta forma reflete todos os problemas enfrentados pelos construtores e isso é descrito no livro com uma riqueza de detalhes em perfeita sintonia com o desenrolar da trama, o que é genial.

The Pillars of the Earth

Os Pilares da Terra

E o livro reflete um fato interessante sobre as catedrais: a sua construção envolvia todos os grupos sociais da idade média – de reis a artesãos. Os problemas enfrentados pelos construtores e os moradores da cidade não eram só de ordem técnica ou regiliosa, mas sociais e políticos. Por exemplo, a construção da catedral podia ser embargada em um lugar por que, politicamente, era mais vantajoso para um outro grupo social que fosse construída em outro lugar e a disputa podia ser sangrenta. Um dado curioso que me surpreendeu aprender na palestra foi que, numa sociedade marcadamente patriarcal, 15% dos trabalhadores envolvidos na construção eram mulheres.

Escrever, para Ken Follett

Para Follett, escrever é olhar a vida interna dos personagens, compartilhar seus sentimentos e se engajar em suas emoções. Segundo ele, a gente vira a página do livro porque se importa. Se a estória engaja a emoção, é bem sucedida. Isso não é novidade para os escritores mas a preferência de Follett por escrever livros longos sim. Escritores novatos não são encorajados a escrever livros logos, pois são mais difíceis de vender para as editoras. Mas para Follett e, do ponto de vista de um escritor já famoso, faz sentido. Para ele, um livro longo é muito mais prazeirozo do que um livro curto, pois o leitor pode acompanhar a trajetória do personagem da infância à velhice enquanto, num romance curto, você só tem um fragmento desta trajetória. Obviamente, é preciso que a estória seja boa, bem escrita e interessante para o leitor (não só para o escritor).

Quando Follett mergulha na vida, no dia a dia de um determinado período, ele procura os momentos dramáticos – momentos em que ele se pergunta “E agora, o que é que eu faço? Como eu posso mudar as coisas?” Absorver cada detalhe da estória, do período, leva muito tempo. É um processo de pesquisa meticuloso, afinal, pelo menos dez pessoas no mundo serão experts no assunto.

Ken Follett

Ken Follett

Follet considera o planejamento da estória o elemento fundamental no processo de produção do livro. Ele leva pelo menos um ano planejando a estória, trabalhando o outline, ou seja, definindo como a estória vai se desenrolar. Cada capítulo é delineado e ele revisa e trabalha cada capítulo e cada personagem exaustivamente, detalhando e melhorando o texto a cada revisão.

Outra coisa importante para ele é saber como a estória vai acabar. Muitos escritores não trabalham dessa forma e conheço alguns que preferem não saber o final de antemão e outros que sabem mais ou menos o rumo que a estória vai tomar, mas não têm um final determinado. Para Follett, saber o final ajuda a construir a trama de forma a provocar no leitor um desejo ou um temor intenso em relação à conclusão. Ele diz que não deve haver nunca um momento em que o leitor possa sequer pensar em colocar o livro na mesa de cabeceira, desligar a luz e ir dormir. Os dilemas e questionamentos do livro devem “arder” no leitor.

E é a estrutura do livro que faz com que a gente continue lendo. Portanto, delinear cada capítulo, produzir o outline, para ele, é crucial. Dar substância à esse outline, essa estrutura, fazer com que essa substância soe real, é a coisa mais dificil do mundo, segundo Follett. Mas, uma vez que ele consegue atingir esse objetivo, ele tem a primeira versão nas mãos. Em seguida, essa versão é lida por amigos, editores e pessoas que podem ajudar a melhorar o texto e, então, ele re-escreve o livro.

O processo de escrita de Follett, portanto, tem três etapas: a definição da estrutura (outline) / a primeira versão / re-escrever. Produzir a estrutura leva, em geral, um ano. As etapas seguites dos romances mais curtos levam aproximadamente seis meses cada; dos mais longos, em torno de oito.

Catedral de Salisbury

Catedral de Salisbury

Pesquisa

Claro que a pesquisa envolvida na construção de um romance histórico tão detalhado quanto Os Pilares da Terra é uma tarefa hercúlea. Tendo escrito um roteiro que é uma biografia histórica de um príncipe galês do século XIII, eu sei bem o quão extensa essa pesquisa pode ser. O volume de informações é enorme, definir o que incluir, o quão “factual” sua estória será e o quanto de ficção você vai inventar, são decisões incrivelmente difíceis. É fácil se “perder” no processo de pesquisa e ficar enredada nele, fascinada com a descoberta de um mundo inteiramente novo. Porém, é importante manter o foco na estória e, nesse ponto, concordo com Follett em gênero, número e grau: definir a estrutura é uma ótima estratégia.

Mas, voltando a Follett. Ele em geral trabalha com uma equipe de pesquisadores e historiadores de peso. Em Os Pilares da Terra, foram três historiadores especializados no período, acadêmicos respeitados. Porém, ele alerta que existe um elemento grande de especulação e “adivinhação” nos romances históricos. Existem coisas que não possuem registro e só mesmo a imaginação pode ajudar. Ele, pessoalmente, não recorre a documentos originais – em sua maioria escritos, no caso de Os Pilares, em latim ou francês-normando (Norman-French). Claro que muitos destes documentos já estão hoje disponíveis em inglês e seria uma loucura imaginar ter que aprender latim arcaico pra poder escrever um livro.

Mas acontece. Estou escrevendo um relatório para um projeto de adaptação de um romance histórico para o cinema (ou televisão) – ainda não posso revelar detalhes – em que a autora ficou tão apaixonada pelo sujeito de sua pesquisa (ele é apaixonante mesmo) que aprendeu latim para poder ler os documentos originais. Se, por um lado, isso pode ser uma fonte valiosa de informação, por outro, pode ser uma enorme perda de tempo. A qualidade do texto e a estrutura da narrativa são mais importantes do que a acuidade do fato narrado – afinal, trata-se de um romance e não de uma biografia oficial.

The Tower of Babel

Ilustração medieval sobre a construção da Torre de Babel. Segundo Follett, a imagem reflete a construção das catedrais da Idade Média

Follet lembra que, no casa da construção das catedrais na Inglaterra, muitos contratos de construção e registros de trabalho sobreviveram e são uma fonte rica de informação sobre os trabalhadores, materiais e os problemas da época. Porém, uma coisa que não existe são desenhos de como essas construções eram concebidas. Papel não existia na época e parchment, um tipo de tecido (não sei a exata tradução do termo em português) usado para escrever não estava disponível para esse tipo de uso e era caro. Os mestres de obras desenhavam com um objeto com ponta afiada no chão (em mortars – argamassa?). Em Os Pilares da Terra esses processos são descritos de forma brilhante.

Foi uma noite fascinante para quem gosta do período (idade média) e de escrever. A próxima empreitada de Follett é uma série de livros que se passa entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, provavelmente seguindo a trajetória de um personagem. E ele torce para que o público aprove. Os Pilares da Terra está sendo transformado em uma série para a televisão nos Estados Unidos – essa eu mal posso esperar para assistir.

O Museu Victoria & Albert de Londres tem um acervo fenomenal e é a maior referência em arte e design, se não me engano, do mundo. Além disso, o museu também oferece cursos e palestras relacionadas aos períodos históricos do acervo e mostras organizadas. Vale a pena visitar mas, se você não está ou pretende ir a Londres, dê uma olhada no site e na loja online.

One Response to Escrevendo romances históricos: Ken Follett e Os Pilares da Terra

  1. tali says:

    gostei da matéria. Eu escrevo romances históricos e sinto essa enorme dificuldade em situar os personagens na época. O último livro que escrevo se passa no período aristocratico europeu, envolvendo títulos nobiliárquicos.

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