Angel Time – an interesting script device / Angel Time – um recurso interessante num roteiro


Em português

When I was doing my MA in creative writing (University of Winchester, UK) I met the best scriptwriting tutor ever: Steve Hawes. In one of our classes, he introduced us to something I had never heard of until then: Angel Time. I found it fascinating. I normally don’t find much reference to this device, people don’t talk much about it (or perhaps call it other things) but I quickly started to recognise those moments in films.

“Angel Time” can be a brief relaxed, fun or quirky action, a joyous or playful moment, an unusual episode, a one time thing detached from the action taking place in the story. It is something unexpected, unusual, that dislocates the characters (and, therefore, the audience) momentarily from the flow of action, normally followed by a shocking, violent or simply abrupt “come back to reality call” event. It’s better if it has a subtext function but this isn’t always the case.

The film Children of Men (2006) has a perfect example of Angel Time (SPOILER WARNING – don’t read this if you haven’t watched the film).

The characters (played by Julianne Moore and Clive Owen) are in a car trying to escape. They’re driving on a dangerous road trying to reach a place where an important person will be found. They’re all tense, tired, worried. A lighter conversation begins. Then Julianne starts playing a game. The characters play joyously for while and it’s delicious to watch – the game distracts them (and us) from the very tense and threatening situation. They find a moment of relief. They’re laughing. They’re having fun… then something terrible happens. Watch that scene on You Tube:

The contrast between this brief moment of joy and the violence that interrupts it is very powerful: Angel Time has managed to “distract” us briefly, “dislocate” us for a few seconds from the horrible reality only to plunge us back into it even more forcefully.

Angel Time is fascinating and I love to identify them but it isn’t a crucial element in a script, once it doesn’t necessarily impact or change the development of the story itself, but it can be a powerful device to play with.

Most films have Angel Times embedded in them – one or more but, as with all devices, never overuse them! Also, it is normally used to heighten things up, not to weaken the scene. Therefore, be careful.

Remember: when a scene starts, characters are at a certain level of emotion/tension/understanding; when it ends, they MUST be a HIGHER or LOWER level but NEVER AT THE SAME level; otherwise, the scene is flat and nothing has been gained or lost (therefore, what the hell is the purpose of that scene?!) So, Angel Time can help you get through some potentially boring, flat, scenes.

In the case of Children of Men, Angel Time actually had a function: to add action and heighten things up in the middle of an otherwise probably very flat scene – the characters must travel by car through a dangerous road to reach someone. You know already that the road is dangerous; you know already the characters’ purpose. So… to show them merely driving, looking tense would be boring, right? The “game” takes you away in an Angel Time only to hit you harder in the end: things are a lot more tense, dangerous and horrible after it.

I’m not sure, for example, if in a thriller, the moment of fun or humour used to relieve tension (only to heighten it more afterwards) can be called Angel Time, but I guess it would be ok.

There is a nice Angel Time moment in Jaws, which is embedded in the “bonding” scene between Quint (Robert Shaw), Brody (Roy Scheider) and Hooper (Richard Dreifuss). They’re chasing the shark but they don’t get along. They’re in Quint’s boat, at night, and they compare experiences. They begin to bond. Then they start singing! They’re getting along! But the shark is outside… and close… but they’re singing, unaware of how close it is… suddenly… bang!… the shark attacks the boat… Watch part of that scene on You Tube:

There’s also the famous scene in Raiders of the Lost Arc when Indiana Jones is desperately trying to find Marion, who’s been taken, and is confronted with the swordsman. In a reverse of expectations, instead of fighting, as would be his natural response, he simply shoots the guy. Some say this scene wasn’t on the original script, but I don’t know if it’s true… This one is so famous it became almost a cliche but it always amuses me. If you want to watch it on You Tube, here it is:

After that class, I always think carefully about the Angel Times in my scripts… they can be a lot of fun and, ultimately, play a nice role in your film. It could even become a memorable scene!

***


In English

Quando eu estava fazendo o mestrado em escrita criativa (University of Winchester, UK), conheci o melhor professor de roteiro de todos os tempos: Steve Hawes. Em uma das aulas, ele nos apresentou a um recurso do qual eu nunca tinha ouvido falar até então: o Angel Time. Eu achei fascinante. Normalmente, não encontro muitas referências a este recurso, as pessoas não falam muito dele (ou talvez o chamem de outra coisa) mas logo comecei a reconhecê-los nos filmes.

“Angel Time” pode ser uma ação breve, relaxada, divertida ou esquisita; um momento alegre ou engraçado; um episódio pouco usual que desloca os personagens (e, por conseguinte, o público) momentaneamente do fluxo da ação, em geral seguido de um evento chocante, violento ou abrupto de “chamada de volta à realidade”. É melhor quando momento tem uma função de subtexto, mas nem sempre é esse o caso.

O filme Children of Men (2006) tem um ótimo exemplo de Angel Time (AVISO DE SPOILER – não leia se ainda não assistiu ao filme e pretende assistir).

Os personagens de Julianne Moore e Clive Owen estão em um carro, dirigindo em uma estrada e tentando chegar a um lugar onde se encontrarão com uma pessoa importante. Estão todos tensos, cansados, preocupados, mas começam a conversar casualmente. Então, Julianne começa a jogar um jogo. Os personagens brincam alegremente por um tempo e é delicioso de assistir – o jogo os distrai (e a nós) da situação tensa e ameaçadora. É um momento de alívio. Eles riem. Eles se divertem. Então… bang!… uma coisa horrível acontece. Veja a cena no You Tube:

O contraste entre este momento breve de alegria e a violência que o interrompe é muito poderoso: o Angel Time conseguiu nos “distrair” brevemente, nos “deslocar” por alguns segundos de uma realidade horrível apenas para nos mergulhar de volta nela com ainda mais força.

O Angel Time é um recurso fascinante e adoro identificá-lo mas não é um elemento crucial em um roteiro pois ele não necessariamente impacta ou modifica o desenvolvimento da estória em si, mas pode ser um recurso poderoso para se utilizar.

A maior parte dos filmes tem um Angel Time embutido – um ou mais de um, mas, como com todos os recursos, não use demais! Eles também são utilizados para intensificar as coisas ou não interferir nelas, nunca para enfraquecer uma cena. Portanto, cuidado.

Lembre-se: quando uma cena começa, os personagens estão em um patamar de emoção/tensão/entendimento; quando ela termina, eles PRECISAM estar em um patamar MAIS ALTO ou MAIS BAIXO, mas NUNCA NO MESMO patamar; senão a cena é “plana”, ou seja, nada foi ganho ou perdido (qual diabos, então, é função da cena?!) O Angel Time pode te ajudar a lidar com cenas potencialmente chatas ou “planas”.

No caso de Children of Men, o Angel Time na verdade tem uma função: adicionar mais ação e intensificar as coisas no meio de uma cena provavelmente “plana” – os personagens precisam viajar de carro por uma estrada perigosa para encontrar alguém. Você já sabe que a estrada é perigosa; você ja sabe qual o propósito dos personagens. Então, mostrá-los apenas dirigindo e parecendo tensos seria muito chato, certo? O “jogo” te leva pra dentro de um Angel Time apenas para te atingir com mais força no final: as coisas se tornam ainda mais tensas, perigosas e terríveis depois dele.

Não tenho certeza se, por exemplo, em um thriller, o momento de humor usado para aliviar a tensão (apenas para aumentá-la em seguida) pode ser chamado Angel Time, mas acho que sim.

Tem um Angel Time legal em Tubarão (Jaws) que está inserido na cena de “bonding” (pode ser traduzido como um processo de ligação, conexão) entre Quint (Robert Shaw), Brody (Roy Scheider) e Hooper (Richard Dreifuss). Eles estão caçando o tubarão mas não se dão bem entre si. Estão no barco do Quint, à noite, e comparam experiências. Eles começam a se conhecer, se dar melhor, se conectar. E começam a cantar! Eles estão se divertindo e se “conectando”! Mas o tubarão está lá fora… muito perto… e eles cantam, sem se dar conta do quão o tubarão está perto…. e de repente… bang! … o tubarão ataca o barco. Assista parte desta cena no You Tube:

Tem também aquela famosa cena em Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Arc) quando Indiana Jones está tentando desesperadamente encontrar a Marion, que havia sido levada, e é confrontado com o cara com a espada. Numa inversão das expectativas, ao invés de encarar o adversário na unha, como seria o seu normal, Jones dá um tiro no cara e liquida o problema. Alguns dizem que esta cena não estava no roteiro original, mas não sei se é verdade… Esta cena é tão famosa que quase se tornou um cliché, mas sempre me diverte. Se você quiser assistir no You Tube, ei-la.

Depois desta aula, sempre penso com carinho no Angel Time dos meus roteiros… pode ser muito divertido e, no final das contas, ter uma função muito interessante no seu filme. Pode até se tornar uma cena memorável!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: