Construção de mundos no gênero Fantasia

In English 

 

Este trabalho foi escrito para o módulo de Metodologia de Pesquisa, parte do meu mestrado em Creative and Critical Writing, na Universidade de Winchester, no Reino Unido, em 2007.

A inspiração para esta pesquisa se originou em um texto que comecei a escrever há aproximadamente vinte anos atrás: um romance de fantasia para adultos ambientado parte no Brasil contemporâneo, parte em dimensões paralelas conectadas ao nosso mundo e interligada a outras dimensões. A estrutura destes mundos, suas gêneses, impactavam significativamente nos protagonistas e na forma como eles interagiam. Eu precisava, portanto, ampliar minha compreensão sobre como construir esses mundos paralelos e como fazer melhor uso de suas características únicas na narrativa. Eu também desejava dar uma olhada em como outros autores o haviam feito e o que tornava seus mundos únicos.

De acordo com Tuttle, em Writing fantasy and science fiction, construção de mundos é “(…) talvez o que mais diferencia fantasia e ficção científica de outros gêneros.” (1) Michael Moorcock vai além e afirma que, de fato, “uma parte intrínseca de uma fantasia épica são as paisagens exóticas”, e que é vital apresentar a “substância de tal trabalho” pois a construção de imagens é um elemento crucial na habilidade do escritor de transmitir “metáforas pessoais” e evocar a atmosfera pretendida do romance (2).

Esta pesquisa tem por objetivo, portanto, investigar o que constitue “construção de mundos” neste gênero literário, seus principais elementos e funções, e também dar uma olhada em alguns mundos criados por autores como Michael Moorcock, J.R.R. Tolkien e Philip Pullman. Não examinarei estes mundos em detalhe, mas avaliarei alguns elementos que constituem suas características únicas.

Do que são constituídos os mundos de fantasia? 

Um mundo de metáfora

Sem me aventurar muito profundamente em explicações teóricas sobre a natureza da ficção de fantasia, é seguro dizer que é um meio de expressar nossos mundos internos, medos e desejos. Armitt diz que “(…) fantasia (ou ao menos phantasy) é central a todos os trabalhos de ficção. Segundo os psicanalistas, phantasy é esta fonte intangível de medos e desejos inconscientes que alimentam nossos sonhos, nossas fobias e, portanto, nossa narrativa de ficção.” (3)

Todorov diz, em The Fantastic, que o fantástico reside entre o “maravilhoso” e o “uncanny” (estranho) (4) e descreve o “uncanny” como a “reação ao medo” associada a emoções, não a eventos impossíveis; e o “maravilhoso” unicamente como a “presença do sobrenatural” (5). Todorov nos avisa, entretanto, que este uso da palavra não é o mesmo que o usado por Freud, que define o “uncanny” como “aquilo que desperta medo ou horror; da mesma forma, também (…) que tende a coincidir com o que excita temor em geral.” (7) Os dois elementos combinados nos oferecem o “mundo da metáfora” (8) com o qual podemos explorar nossos mundos internos, ao transpô-los para dentro de mundos para além de nós mesmos.

Tolkien se refere a esses outros mundos como “Mundos Secundários”, mas explicarei mais tarde um pouco mais sobre a visão dele sobre tais mundos. Eles podem transpor as barreiras do infinito por estarem além do horizonte: “além da linha de visão mas para onde podem viajar” (9). Localizados além dos sentidos ou experiência vivida (10) – como lendas e mitos – nós os relacionamos às nossas próprias sociedades (11) e experiências. Temas recorrentes relacionados à constituição destes mundos são a conexão íntima entre nós e nossos mitos e “nossa unidade com a natureza” (12). Não é de surpreender que encontremos muitos escritores evocando a “mágia e o mistério das florestas” (13) e estabelecendo seus mundos em ambientes selvagens.”

Como escritores, somos livres para estabelecer e definir as regras nas quais basearemos nossos mundos secudários. Entretanto, a plausibilidade destes mundos é “governada pela interpretação daquilo no qual estamos inseridos (…) nossas percepções sensoriais do mundo exterior e nossas percepções introspectivas do nosso mundo interno.” (15) Explicarei mais sobre esta noção de plausibilidade abaixo.

Armitt argumenta que, a nível de conteúdo, plausibilidade nos prende à nossa estrutura narrativa. “Múltiplos mundos secundários podem proliferar, porém as fronteiras estabelecidas em torno destes mundos devem se manter constantemente em ordem para que a narrativa ser bem sucedida” (15). Os mundos não podem depender apenas de plausibilidade para serem eficientes. Os mundos são, conforme o argumento de Tuttle, “tão essenciais quanto a trama – (…) uma parte intrínseca da estória, já que as duas tarefas caminham de mãos dadas” (16).

Plausibilidade

Existem outras noções básicas relevantes na construção de mundos secundários. Uma delas é a de que um mundo não precisa ser possível para ser plausível. É geralmente aceito que escritores podem oferecer o que quer que desejem como “realidade” em seus mundos. Isso é possível devido a um simples mecanismo conhecido como “suspensão voluntária da descrença” (17). Apesar dos escritores terem carta branca para subverter as leis da natureza, incluindo as leis da física, a coerência interna, constância e consistência das regras estabelecidas para estes mundos devem ser seguidas. (18).

Universos paralelos são criações que existem unicamente na mente do escritor e devem ser transferidas para o texto, mesmo se eles usem e se refiram a elementos existentes em nosso mundo, meio ambiente ou sociedade. Não há dúvida de que o uso de ambientes e elementos familiares tornam a construção do mundo muito mais fácil tanto para o escritor quanto para o leitor. Stableford, em Writing Fantasy and Science Fiction, coloca que “Estórias que são supostamente estabelecidas no mundo real – incluindo as de fantasia e ficção científica nas quais o mundo real é suplementado por algum tipo de ‘novum’ – possuem uma medida de solidez e de consistência interna pré-estabelecida, ’emprestada’ de um mundo que o escritor e o leitor já conhecem.” (19)

A medida do quanto os autores procuram extrapolar fica inteiramente a critério deles. J.R.R. Tolkien, por exemplo, passou a vida inteira criando a gênese, as linguagens e a evolução dos habitantes dos seus mundos secundários. Isso não é, de forma alguma, compulsório. Não há nem mesmo uma necessidade real de se oferecer informações sobre como ou porque este mundo passou a existir. Detalhes podem ser dados no desenrolar da estória, na base da “necessidade de saber” (20). Há, porém, dois aspectos a serem considerados:

Primeiro – quanto mais o escritor sabe sobre o mundo, mais consistente e rico ele se torna. Portanto, é útil compreender como elementos específicos se desenvolveram e o quão relevantes eles são para os personagens, incluindo os “valores de sobrevivência” (21).

Segundo – Stableford diz, em Writing Fantasy and Science Fiction, que mais importante do que oferecer um panorama do mundo “inteiro” é a forma como o escritor transmite as informações sobre ele: “A arte de conceber mundos imaginários plausíveis é tanto uma questão de se deixar coisas de fora quanto a de incluir coisas, contanto que você consiga convencer o leitor de que tudo o que menciona faz parte de um todo coerente” (22). Detalhes que destacam características deste mundo relevantes para a estória são muito mais úteis para os “olhos da mente” (23) do que a quantidade de informação oferecida no texto.

Uma noção muito interessante relacionada a plausibilidade também foi definida por Stableford, em Opening Minds, Essays on Fantastic Literature, como “impossiblidades plausíveis”. Porque a visão é tão importante para seres humanos como um sentido que envolve não apenas o ato de ver mas também a interpretação do que está sendo visto, o que nos confere “a terceira dimensão à imagem por inferência” (24), podemos aceitar, como aceitamos as ilusões de ótica, não apenas “(…) impossibilidades plausíveis mas também possibilidades implausíveis, que são a moeda de troca dos mágicos” (25).

Stableford relaciona a “plausibilidade das imagens visuais” com a das “idéias” (26). Ele exemplifica: o olho humano pode ser enganado tanto quanto a mente humana. Da mesma forma como criamos imagens mentais e falamos conosco mesmos sem verbalizar nossas palavras, podemos aceitar a idéia da telepatia como uma impossibilidade plausível (27). Sendo criaturas ao mesmo tempo racionais e emocionais, em conflito com nossas naturezas “elevadas e primitivas, emprestamos plausibilidade a muitos tipos de imagens de identidades (selves) divididas: vítimas de possessão demoníacas, lobisomens, múltiplas personalidades. Ela confere plausibilidade a forças hipotéticas que podem nos dominar, como as emoções apaixonadas parecem fazer: feitiços, maldições e poções do amor.” (28)

Ambientação

Ambientação e contexto, se desconectados da ação, em vez de atrair os leitores para dentro da estória podem ter o efeito contrário: afastá-los (29). Tuttle, em Writing fantasy and science fiction, cita Joanna Russ em relação a isso: “Joanna Russ: a ambientação é importante somente enquanto ela se impõe sobre o protagonista. Escritores de fantasia e ficção científica podem aprender sobre essa abordagem (Cather and Hemingway) ao conferirem propósito às descrições, conectando-as sempre que possível com personagens e trama (30). Stableford também ressalta isso quando aconselha que é possível transmitir um senso de lugar através do ponto de vista dos personagens, quando a ênfase em detalhes específicos vem da consciência que o personagem tem da importância destes detalhes (31).

Inseridos na ambientação estão uma ou muitas sociedades que funcionarão e se desenvolverão de acordo com uma combinação de variáveis como: meio ambiente, clima, geografia, entre outras. Tais sociedades desenvolverão culturas únicas, usos de linguagem e meios de comunicação. Estes elementos são poderosos para conferir um senso de lugar; a constituição da sociedade e o uso da linguagem são instrumentos úteis para a criação de mundos plausíveis, atraentes e que tenham credibilidade.

Escritores de ficção científica se apóiam muito na história e nos padrões de desenvolvimento tecnológico para transmitir um senso de tempo e lugar (32). Escritores de fantasia se apóiam nisso também e alguns mundos secundários refletem tempo e lugares na nossa própria estória. É vital, no entanto, estabelecer sempre o modus operandi destas sociedades, como elas se estruturam e como os indivíduos se comportam em tais comunidades (33), independente do quão similares elas sejam com o nosso mundo. Não é preciso criar linguagens e dialetos específicos; isso não é nem mesmo recomendável. Card nos lembra que: “Se você tem pessoas de mais de uma nação, é provável que eles falem línguas diferentes; se eles são de mundos diferentes, certamente falarão” (34). Assim como o uso da linguagem é um aspecto proeminente de qualquer cultura, escritores devem considerar que comunidades tendem a desenvolver “códigos” específicos de comunicação. Ao incluí-los na narrativa, eles estão criando um mundo mais vívido e convincente.

Outro aspecto a ser considerado é o estado mental da sociedade como um todo. Por exemplo, se esse mundo sofreu ou está sofrendo algum tipo de ruptura ambiental ou está em guerra, isso terá um impacto imenso no seu funcionamento normal. Seus habitantes estarão mergulhados em um estado mental e um modus operandi alterados. Novamente, escritores podem recorrer à nossa história – o presente sendo uma fonte valiosa – para transmitr o impacto da ruptura ou do senso de normalidade nestas sociedades. No caso da ficção científica, por exemplo, Jones ilustra que: “Se eu quisesse escrever sobre a situação subsequente (imediatamente após) uma guerra nuclear, eu provavelmente encontraria os registros (e os não registrados) dos efeitos da Peste Negra iluminadores” (35).

Tendo explorado e compreendido o que constitui alguns dos elementos da construção de mundos, eu gostaria de examinar as peculiaridades dos mundos paralelos e universos criados por Michael Moorcock, J.R.R Tolkien e Philip Pullman. Minha intenção não é oferecer uma visão aprofundada dos mundos destes escritores mas um olhar rápido sobre alguns de seus elementos.

Construção de mundos em Moorcock, Tolkien e Pullman

O Multiverso (multiverse) de Michael Moorcock

Um aspecto interessante da construção de mundos de Moorcock, em relação aos personagens Eternal Champion, não é relacionada aos mundos que eles habitam mas ao conceito utilizado por Moorcock para conectar todos os mundos habitados pelos personagens, contido nessa idéia de “multiverso”.

O conceito de “multiverso” não foi criado, é único ou pertence a Moorcock. Como ele mesmo diz, esta idéia já existe na ficção científica e ele criou “talvez um modelo mais sofisticado para ‘o multiverso’” (36). Uma das definições de “multiverso” que se aplica melhor a noção que eu gostaria de explorar vem do Oxford English Dictionary:

b. orig. Science Fiction. A hypothetical space or realm of being consisting of a number of universes, of which our own universe is only one; (spec. in Physics) the large collection of universes in the many-worlds interpretation of quantum mechanics, according to which every event at the quantum level gives rise to a number of parallel universes in which each in turn of the different possible outcomes occurs.37

(Um espaço hipotético ou reino existente que consiste de um número de universos, no qual nosso próprio universo é apenas um; (esp. em Física) a grande coleção de universos na interpretação da mecânica quântica de muitos-mundos, de acordo com o qual cada evento no nível quântico desencadeia um número de universos paralelos em cada um dos quais ocorrem diferentes desdobramentos possíveis. (37))

Nas suas estórias do Eternal Champion, o mesmo herói reencarna em diferentes tempos e mundos. Moorcock explica: “Trouxe a lógica da estória da reencarnação para a idéia de um herói recorrente, mas adicionai meus próprios ângulos” de forma a manter “o mesmo personagem em estórias diferentes” (38). O herói não apenas reencarna, ele às vezes pode se reunir com seus outros “eus” em uma outra instância deste “multiverso” e onde trabalham em conjunto, estando mais ou menos consciente de que eles são a mesma “alma”.

Considero esta noção interessante porque Moorcock cria e interconecta múltiplas dimensões com a noção de um universo “em busca” de harmonia, alternando entre o Equilíbrio (Balance) e o Caos (Chaos). O personagem Eternal Champion atua como um “fio” que conecta as dimensões como um instrumento ora de um (Equilíbrio), ora de outro (Caos). No meu caso, meus personagens também são “fios” conectando mundos paralelos, cruciais para a restauração da ordem e o início de uma nova era.

Os Mundos Secundários de Tolkien

Um aspecto interessante na construção de mundo em Tolkien é a sua visão dos Mundos Secundários (Secondary Worlds): “Qualquer pessoa pode dizer ‘o sol verde’,” porém “Para fazer um Mundo Secundário no qual um sol verde seja verossímil… provavelmente irá requerer trabalho e elaboração, e certamente demandará uma habilidade especial, uma espécie de engendramento élfico” (39)

Tolkien fala da criação destes mundos não apenas em relação a “consistência da realidade” mas como uma construção artística. Para ele, engendrar um mundo de Fantasia não é uma arte menor, ao contrário, é “uma das mais potentes, sem dúvida a forma que se aproxima da mais pura”. Fantasia criada pelo homem aspira à condição de Encantamento, que é uma característica das estórias contadas pelos elfos (…).” (40)

Um outro aspecto é que ele relaciona sua “construção” de mundos a uma “necessidade primitiva”: “criamos à nossa medida e em nosso modo derivativo, porque somos criados: e não apenas criados, mas criados à imagem e semelhança de um Criador” (41). Ele quer alcançar, como uma forma de escapar ao tédio e às ansiedades da vida, um senso de “resgate”, que é uma noção que eu nunca havia associado ao seu trabalho. Ao “fazer” mundos como o “Criador” (Deus), talvez ele esteja buscando inspirar e re-viver o mesmo “encantamento” provocado pelas fábulas:

‘is not to be found in the wilfully awkward, clumsy, or misshapen, not in making all things dark or unremittingly violent; nor in the mixing of colours no through subtlety to drabness, and the fantastical complications of shapes to the point of silliness and on towards delirum. Before we reach such states we need recovery. We should look at green again, and be startled anew (but not blinded) by blue and yellow and red. (….) This recovery fairy-stories help us to make. 42 

(não é para ser encontrado no propositalmente estranho, desajeitado ou mal formado, não em transformar tudo em sombras ou incessantemente violento; nem no misturar de cores nem, através de sutileza, alcançar o insípido, e nas complicações fantásticas de formas até o ponto da tolice e rumo ao delírio. Antes que alcancemos tais estados precisamos nos recuperar. Deveríamos olhar para o verde novamente e sermos de novo surpreendidos (mas não cegados) pelo azul e amarelo e vermelho. (…) Estas fábulas de resgate nos ajudam a criar.) (42)

 

As Fronteiras do Universo (His Dark Materials) de Pullman

Em cada um dos romances da trilogia de As Fronteiras do Universo (His Dark Materials) vemos mundos alternativos. Como Lenz ressalta, em Alternative Worlds in Fantasy Fiction, em Northern Lights (A Bússula Dourada) encontramos um “universo como o nosso, mas diferente de várias maneiras”; uma das diferenças mais marcantes sendo a existência dos daemons, ou personificações da alma humana em uma entidade animal separada, porém intimamente conectada.

A Faca Sutil traz a ambientação de um universo como o nosso mas com um “ambiente de mundo alternativo – uma cidade tropical estranha, deserta, (…), onde novamente humanos não possuem daemons visíveis, mas são caçados por ‘Espectros’, que se alimentam da alma interna dos adultos” e onde os protagonistas Lyra e Will também podem entrar no mundo dos mortos. A estória de A Luneta Âmbar se desenvolverá ‘entre os universos’” (43).

Apesar da idéia de universo de Pullman derivar da física quântica e da noção de que “cada possível desdobramento de uma ação ou evento – não importa o quão grande ou pequeno – engendra um universo em si mesmo” (44), o aspecto interessante desta construção de universo não reside no conceito de um multiverso, em nas especificidades de cada mundo em si. Nesta estória ‘atemporal’, onde o tempo histórico é indeterminado (45), o poder reside no fato de que ele “oferece ‘não apenas uma estória mas um mundo… não apenas uma moral, mas uma visão de mundo.’ Mundos secundários ajudam a satisfazer a fome atual dos leitores por uma metafísica, uma cosmologia e um padrão místico que estruture a experiência humana, tão ausente em tantas vidas.” (46)

Conclusão

Apesar deste ser um olhar bastante superficial em aspectos da construção de mundos em Fantasia, ele me possibilitou adquirir alguns conhecimentos úteis que contribuirão para o desenvolvimento do meu trabalho. Aprender que, como expressões de nossos mundos internos, estes “mundos além de nós mesmos” são lugares onde nossas “impossibilidades plausíveis” podem ser aceitas me fez olhar para o meu texto de uma perspectiva diferente. Eu percebi que precisava revisar minhas motivações para escrever a estória, de forma a adquirir mais clareza e objetividade ao transmitir as informações sobre as dimensões paralelas que eu havia criado.

Um outro insight que ganhei com esta pesquisa foi que eu não apenas preciso estabelecer regras mais claras e fronteiras para estas impossiblidades, mas também desenvolver com mais acuidade as expressões emblemáticas culturais de cada sociedade. Levando em consideração que construção de mundos é uma parte intrínseca da narrativa e da trama, eu precisarei avaliar o quanto a gênese dos meus mundos e das suas características únicas serão incluídas no texto. A vantagem agora é que eu serei capaz de fazê-lo de forma mais consciente.

Um olhar mais focado sobre como alguns autores concebem outros mundos também ofereceram insights interessantes. Há muitas maneiras de abordar conceitos e de construir universos paralelos interconectados. O uso que Moorcock faz do conceito de “multiverso” difere em forma e significado de Pullman. Eles usam, basicamente, a mesma idéia para expressar visões diferentes. Moorcock nos oferece uma visão de um personagem recorrente interferindo no equilíbrio do universo; Pullman nos dá acesso a vários universos para transmitir a “visão de mundo” como material para uma reflexão filosófica. Tolkien espera despertar dentro de nós a visão de um mundo como seu criador intensionava que fosse: o resgate de alguns dos encantamentos originais das fábulas. Cada abordagem, ao oferecer um ponto de vista particular, me proporcionou novas bases para reflexão e exploração.

Notas de rodapé

1. Refência a Tuttle, em ‘Construção de Mundos’, em Writing fantasy and science fiction (p. 30)

2. Moorcock, em Wizardry & Wild Romance, explica que:

‘This dream-scenery is fundamental to the success of any romantic work, (…); it is often the substance of such work, and no matter how well drawn their characters or good their language writers will appeal to the dedicated reader of romance according to the skill by which they evoke settings, whether natural or invented. Their work may not be judged by normal criteria but by the ‘power’ of their imagery and by what extent their writing evokes that ‘power’, whether they are trying to convey ‘wildeness’, ‘strangeness’ or ‘charm’; whether, like Melville, Ballard, Juenger, Patrick White or Alejo Carpentier, they transform their images into intense personal metaphors (…).’ (p. 46)

(Este cenário de sonho é fundamental para o sucesso de qualquer trabalho romântico; (…) é com frequência a substância de tal trabalho, e, não importa quão bem elaborados sejam os personagens ou quão boa seja a linguagem, escritores serão atraentes para os leitores fiéis de romances de acordo com a habilidade com que evoquem a ambientação, seja natural ou inventada. Seus trabalhos podem não ser julgados por um critério normal mas pelo “poder” de suas imagens e em que medida sua escrita evoca este “poder”, estejam eles tentando transmitir o “selvagem”, “estranhamento” ou “charme”; se, como Melville, Ballard, Juenger, Patrick White ou Aleko Carpentier, eles transformam suas imagens em intensas metáforas pessoais (…).” (p. 46)

3. Referência a Armitt, em Theorising the Fantastic (pg. 1)

4. Referência a Todorov, em The Fantastic (p. 41)

5. Referência a Todorov, em The Fantastic (p. 47)

6. Referência a Todorov, em The Fantastic (p. 47)

7. Referência a Freud, em The Uncanny (p. 339)

8. Moorcock, em Wizardry & Wild Romance, diz que “Fantasia épica pode oferecer um mundo de metáfora no qual se explore os territórios férteis escondidos nas profundezas de nós mesmos.” (p. 20)

9. Armitt, em Fantasy Fiction, argumenta que escrita de fantasia “nos projeta para além do horizonte a nível de conteúdo, criando o que J.R.R. Tolkien chama de “Mundos Secundários onde sóis verdes serão verossímeis (…).” (p. 7)

10. Armitt, em Fantasy Fiction, explica como “(…) uma narrativa de fantasia ameaça o infinito da forma descrita por Stewart em On Longing: ela transmite “um mundo não necessariamente conhecido através dos sentidos ou experiência vivida.” Uma instância suprema disso reside no potencial de lendas e mitos, a instância primária do qual – pelo menos na tradição Anglo-Americana – são aquelas relativas às estórias do Rei Arthur. (p. 8 )

11. Armitt, em Fantasy Fiction, demonstra que podemos relacionar estas estórias a nós mesmos como “(…) fantasias arturianas mudam de forma a acomodar seus leitores e, em adição, as sociedades que eles representam (…)”(p. 10)

12. Moorcock, em Wizardry & Wild Romance, explica que este tema não é apenas recorrente, mas que autores frequentemente constróem em suas estórias uma relação íntima entre os seres humanos e a natureza: “A inseparabilidade entre seres humans e seus mitos é um tema constante na fantasia épica assim como a unidade com a natureza. Muitos escritores enfatizam a existência de um elo profundo entre seres humanos e seus mundos.” (p. 65)

13. Moorcock, em Wizardry & Wild Romance (p. 66).

14. Stableford, em Opening Minds, Essays on Fantastic Literature, explica a idéia do “comando de plausibilidade”:

Secondary worlds command plausibility because they can offer us landscape and politics which render incarnate key features of the Cartesian mind – the mind as it appears to the ‘mind’s eye’.

In summary, what I have tried to argue here is this: that plausibility is governed by the interpretation which are inbuilt into our ways of perceiving – inbuilt, that is into our sensory perceptions of the world without and our introspective perceptions of the world within.

When impossible things become plausible, it is because interpretations which cannot stand up to rigorous rational criticism continue to hold their dominion over the imagination, which they do because we have no resources to draw upon which would allow them to be place. (p. 97)

Mundos secundários comandam a plausibilidade porque eles podem nos oferecer a paisagem e a política que encarnam as principais características da mente Cartesiana – a mente conforme ela se apresenta para o “olho da mente”.

Em suma, o que tentei defender aqui é: que a plausibilidade é governada pela interpretação inerente a nossas formas de percepção – inerente, parte da nossa percepção sensorial do mundo exterior e nossas percepções introspectivas do mundo interior.

Quando coisas impossíveis se tornam plausíveis é porque interpretações que não podem sobreviver à crítica racional rigorosa continuam a exercer seu domínio sobre a imaginação, e isso acontece porque não dispomos de recursos que poderiam permitir que elas se estabelecessem.

15. Referência a Armitt, em Fantasy Fiction (p. 7).

16. Referência ao ‘World Building’ (Construção de Mundos) de Tuttle, em Writing fantasy and science fiction (p. 30).

17. Tuttle, em ‘Imaginary Worlds’ (Mundos Imaginários), em Writing fantasy and science fiction, explica ‘suspensão voluntária da descrença’ como: ‘O leitor sabe que não é real mas concorda em aceitar a ficção. Não para acreditar nela mas para se impedir de descrer nela’ (p. 33).

18. Tuttle, em ‘Discovering your fantasy world’ (Descobrindo seu mundo de fantasia), em Writing fantasy and science fiction , argumenta que ‘Se é para ser compreendido por alguém além do autor, o mundo de fantasia precisa fazer algum tipo de sentido. Ele precisa ter uma consistência interna. Precisa ter regras.’ (p. 42).

19. Referência a Stableford, em Writing Fantasy and Science Fiction (p. 6-7).

20. Referência a Stableford, em Writing Fantasy and Science Fiction (p. 10).

21. Card, em How to Write Science Fiction and Fantasy explica que quando você cria o habitante de um mundo, é importante determinar a razão para a existência de certas características, em termos evolucionários. Ele diz: ‘Não que você tenha que entender o mecanismo exato da evolução (…), mas você precisa pensar porque tais características incomuns teriam valor de sobrevivência.’ (p. 50).

22. Referência a Stableford, em Writing Fantasy and Science Fiction (p. 10).

23. Referência a Stableford, em Opening Minds, Essays on Fantastic Literature (p. 94).

24. Referência a Stableford, em Opening Minds, Essays on Fantastic Literature (p. 91).

25. Referência a Stableford, em Opening Minds, Essays on Fantastic Literature (p. 91).

26. Referência a Stableford, em Opening Minds, Essays on Fantastic Literature (p. 93).

27. Referência a Stableford, em Opening Minds, Essays on Fantastic Literature (p. 95).

28. Referência a Stableford, em Opening Minds, Essays on Fantastic Literature (p. 95-96).

29. Referência a ‘Describing your World’ (Descrevendo seu Mundo) de Tuttle, em Writing fantasy and science fiction (p. 45).

30. Referência a ‘Describing your World’ (Descrevendo seu Mundo) de Tuttle, em Writing fantasy and science fiction (p. 45).

31. Referência a Stableford, em Writing Fantasy and Science Fiction (p. 25).

32. Referência a Jones, em Deconstructing the Starships (p. 36).

33. Referência a Card, em How to Write Science Fiction and Fantasy (p. 52).

34. Referência a Card, em How to Write Science Fiction and Fantasy (p. 53).

35. Referência a Jones, em Deconstructing the Starships (p. 37).

36. ‘Michael Moorcok’s Multiverse’, http://www.multiverse.org/fora/showthread.php?t=4075

37. ‘Michael Moorcok’s Multiverse’, http://www.multiverse.org/fora/showthread.php?t=4075

38. ‘Michael Moorcok’s Multiverse’, http://www.multiverse.org/fora/showthread.php?t=4075

39. Manlove em ‘J.R.R. Tolkien (1892-1973) and The Lord of the Rings’, em Modern Fantasy Five Studies (p. 161).

40. Manlove em ‘J.R.R. Tolkien (1892-1973) and The Lord of the Rings’, em Modern Fantasy Five Studies (p. 161).

41. Manlove em ‘J.R.R. Tolkien (1892-1973) and The Lord of the Rings’, em Modern Fantasy Five Studies (p. 161).

42. Manlove em ‘J.R.R. Tolkien (1892-1973) and The Lord of the Rings’, em Modern Fantasy Five Studies (p. 166).

43. Lenz, em ‘Philip Pullman’, em Alternative Worlds in Fantasy Fiction (p. 127).

44. Lenz, em ‘Philip Pullman’, em Alternative Worlds in Fantasy Fiction (p. 129).

45. Lenz, em ‘Philip Pullman’, em Alternative Worlds in Fantasy Fiction (p. 127).

46. Lenz, em ‘Philip Pullman’, em Alternative Worlds in Fantasy Fiction (p. 157).

Bibliografia 

Armitt, L., Theorising the fantastic. Interrogating texts. (London, 1996).

Armitt, L., Fantasy fiction : an introduction. Genre series. (New York and London, 2005).

Card, O.C., How to Write Science Fiction & Fantasy (Ohio, 2001).

Freud, S., “The ‘uncanny’”, em Art & Literature (Penguin, 1990) pp. 339-376

Hunt, P.; Milicent, L., ‘Philip Pullman’, em Alternative worlds in fantasy fiction. (London and New York, 2001).

Jones, G., ‘3: Dreamer: An Exercise in Extrapolation 1989-2019’, em Deconstructing the starships: science, fiction and reality. (Liverpool, 1999).

Le Guin, U., The language of the night : essays on fantasy and science fiction, editado e com introduções por Susan Wood. (New York, 1979).

Manlove, C., Modern fantasy: five studies. (Cambridge, 1975).

‘Michael Moorcok’s Multiverse’, http://www.multiverse.org/fora/showthread.php?t=4075

Stableford, B., ‘The Plausability of the Impossible’, em Opening minds: essays on fantastic literature (California, c1995).

Stableford, B., Writing fantasy & science fiction: and getting published. (London, 1997).

Todorov, T. The fantastic: a structural approach to a literary genre. (New York, 1975, c1973).

Tuttle, L., Writing fantasy and science fiction. Writing handbooks. (London, 2001).

2 Responses to Construção de mundos no gênero Fantasia

  1. mithrellas says:

    Olá, eu não consegui ler ainda todo o post, mas a bibliografia é muito interessante! Estou fazendo meu trabalho de mestrado e uma das professoras da banca me sugeriu pesquisar o gênero fantasia! Você poderiame indicar onde posso adquirir esses livros?

  2. Victor (Vctrop) says:

    Tendo Fantasia como meu tema preferido em livros, ainda pretendo escrever algo nesse ramo, e esse texto me deu uma ideia de como começar a pensar no mundo alternativo a ser criado.
    Excelente texto, parabéns!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: